Dizes “aumenta o volume” à Smart TV. Pedes à Alexa para apagar a luz. A câmara da sala avisa quando alguém entra. O telemóvel sabe onde estás, com quem falas e que aplicações utilizas.
Tudo muito cómodo, mas há uma pergunta que quase nunca fazemos: para onde vai toda essa informação?
Uma Smart TV moderna não é apenas um ecrã, a própria Samsung explica na sua política de privacidade que determinados serviços podem recolher informações de utilização, localização aproximada. A empresa também refere que prestadores externos podem participar na conversão de voz em texto. (ver Samsung pl)
E isto não é exclusivo de televisões. A Amazon afirma claramente nos termos da Alexa que, quando falamos com o assistente, o áudio é enviado para a cloud para ser processado. Segundo a empresa, os dispositivos procuram reduzir o áudio enviado e normalmente só começam a transmiti-lo depois de detetarem a palavra de ativação.
O Google também reconhece que serviços de voz podem recolher transcrições dos comandos, informações do dispositivo, contactos ou calendário quando necessários para executar determinadas funções. Parte do processamento pode acontecer localmente; noutros casos, o áudio ou os dados são processados nos servidores da empresa.
Isso significa que a tua televisão está secretamente a gravar todas as conversas da sala?
Na verdade, dizer que todos estes dispositivos “nos espiam 24 horas por dia” seria simplificar demasiado. Existem mecanismos de ativação, definições de privacidade, processamento local e políticas diferentes entre fabricantes.
O problema real é mais interessante: a casa deixou de ser apenas um espaço físico, tornou-se também uma rede de sensores ligados a empresas externas.
E já houve casos graves. A autoridade norte-americana FTC acusou a fabricante Vizio de recolher, através de Smart TVs, informações extremamente detalhadas sobre aquilo que milhões de pessoas estavam a assistir. Os televisores conseguiam identificar conteúdo exibido através de TV tradicional, streaming e até dispositivos externos. O caso terminou num acordo de 2,2 milhões de dólares. (ler Federal Trade Commission)
Nas câmaras domésticas, o risco pode ser ainda mais íntimo. Em 2023, a FTC acusou a Ring de ter permitido acesso excessivo de funcionários e prestadores a vídeos privados de clientes e de não ter implementado proteções suficientes contra invasões de contas. Segundo a autoridade, houve situações em que hackers assumiram controlo de câmaras e vídeos de utilizadores.
Então talvez a pergunta correta já não seja: O meu dispositivo está a ouvir-me?
Mas sim: Que dados este dispositivo recolhe, quando os envia, para onde os envia e quem pode ter acesso?
Porque Smart TV, relógio, assistente de voz, fechadura, câmara, aspirador, carro e telemóvel podem formar uma fotografia extremamente detalhada da nossa vida, e muitas vezes fomos nós próprios que carregámos em Aceitar tudo.
Para reduzir o risco, vale a pena rever permissões de microfone e câmara, desligar reconhecimento de voz quando não é necessário, verificar dispositivos associados às contas, ativar autenticação multifator, atualizar regularmente os equipamentos e analisar se determinada funcionalidade precisa realmente de acesso à cloud.
Privacidade digital já não significa apenas proteger uma password, também significa perceber que objetos dentro da nossa própria casa também produzem dados.
E tu: confias completamente nos dispositivos inteligentes que tens dentro de casa?
VOTEUP — Sim. Com boas configurações e segurança, os benefícios compensam.
VOTEDOWN — Não. Estamos a entregar informação demais em troca de conveniência.

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